Por Jason Jones e John Zmirak

Apenas dois anos após assumir o cargo, um presidente norte-americano, polêmico em seu tempo e hoje bem avaliado, falou abertamente sobre o inexorável rastejar do sub-humanismo, embora não tenha usado esse termo. Poucos fiéis seguidores do seu partido político, que ainda venera a sua imagem, se lembram do que Ronald Reagan escreveu em 1983:

“O aborto não afeta apenas a criança que ainda não nasceu. Ele afeta cada um de nós. O poeta inglês John Donne escreveu: ‘…a morte de qualquer homem me diminui, porque eu faço parte da humanidade; nunca, pois, procures saber por quem os sinos dobram; eles dobram por ti’.Não podemos diminuir o valor de uma categoria da vida humana, a dos ainda não nascidos, sem com isso diminuir o valor de toda a vida humana. Já vimos uma prova trágica desse truísmo no ano passado, quando os tribunais do Estado de Indiana permitiram a morte por inanição do bebê Jane Doe, em Bloomington, porque a criança tinha síndrome de Down.

A verdadeira questão não é a de quando começa a vida humana, mas a de qual é o valor da vida humana. O abortista que reagrupa os braços e pernas de um bebê para ter certeza de que todos os seus pedaços foram retirados de dentro do corpo da mãe dificilmente duvida de que aquele era um ser humano. A verdadeira questão, para ele e para todos nós, é saber se aquela pequena vida humana tem ou não tem o direito, recebido de Deus, de ser protegido pela lei; o mesmo direito que nós temos”.

Como é que um direito tão fundamental poderia ser simplesmente deixado de lado? Sendo “brutalmente cândidos”, podemos afirmar que um “esquecimento” desse tipo foi intencional e consciente, um exemplo de empatia que desaba diante de desejos egoístas embrulhados em slogans utópicos: com o aumento da contracepção e a aparente derrota das doenças venéreas pelos antibióticos, o homem moderno (escolhemos o termo deliberadamente) teve o vislumbre daquela terra prometida de liberdade sexual, que vinha seduzindo a imaginação dos libertinos ao longo de toda a história humana: o sexo poderia finalmente se livrar das amarras biológicas e ser usado como pura fonte de prazer. Divorciado de quaisquer compromissos mais duradouros que o desejo fugaz, aliviado do peso da reprodução, sem o lastro da culpa e da vergonha, o assim rotulado “amor livre” poderia servir à causa do progresso, dissolvendo os laços sociais indesejados e a herança estrutural social que a Nova Esquerda enxergava como repressiva: o núcleo familiar, a Igreja e os códigos “burgueses” de comportamento.

Na década de 1960, havia, de fato, relativamente poucos estudantes ativistas que fossem versados de verdade em Marx e Engels, ou interessados não apenas superficialmente em melhorar a sorte dos “proletários”. A Nova Esquerda canalizou a rebelião juvenil contra as barreiras impostas ao prazer. A paz e a prosperidade, conquistadas a duras penas pela geração da Segunda Guerra Mundial, que teve de raspá-las dos escombros e dos túmulos de mais de 60 milhões de mortos, pareciam, para a próspera juventude ocidental, coisa banal, inerente à normalidade da vida. Pouca gente, além dos reacionários e dos eclesiásticos, pensou em lançar o alerta de que a ordem social se revelaria muito frágil na hora em que os ácidos do desejo adolescente carcomessem os seus alicerces.

Como quer que fosse, haveria uma pedra no meio do caminho: o fato inconveniente de que os seres humanos são mamíferos e perpetuam a espécie através da relação sexual. E o sistema reprodutivo humano é astuto: com o passar do tempo, ele vai derrotando a maioria dos métodos de contracepção (se a margem de falha é de “apenas” 10 por cento e você brincar com ela durante dez anos… bom, até mesmo um americano é capaz de completar esse tipo de cálculo). O resultado é que o aumento do controle de natalidade veio acompanhado de uma explosão de casos de gravidez não desejada: o aumento da promiscuidade ultrapassou até mesmo os progressos das técnicas de contracepção. Em meados da década de 1960, a barreira para a liberação sexual não eram mais os padres e os puritanos, nem o medo da desgraça social, mas uma safra constante de clamorosos bebês indesejados. O movimento progressivo para livrar o homem de qualquer obstáculo para os seus desejos se viu então confrontado de repente com um obstáculo puramente humano: a reverência que as mulheres grávidas sentiam pelos próprios filhos ainda não nascidos.

O ex-presidente norte-americano e o papa emérito sabiam que a liberdade mal entendida leva os homens ao ódio contra si mesmos e à cultura da morte.

O movimento feminista, que no seu início tinha visto uma Susan B. Anthony chamar o aborto de “crime monstruoso que os homens impunham às mulheres”, passou a adotar a “ética” que Simone de Beauvoir plagiara do amante, Jean-Paul Sartre: a busca da autolibertação de qualquer vínculo social ou de qualquer influência externa, coisa que levaria as mulheres a reengenhar a sua sexualidade para torná-la igual à dos “playboys”. O aborto, que antes era uma conveniência ilegal apoiada principalmente por homens solteiros e promíscuos, acabou virando um “direito humano fundamental” exigido pelas ativistas feministas, favorecido pela silenciosa filantropia dos controladores da população, tais como a Fundação Rockefeller, cujos relatórios alarmistas, com intensos matizes de eugenia, influenciariam o juiz Harry Blackmun no caso Roe versus Wade.

Assim como os proprietários de escravos encontravam “justificativas científicas” durante o Iluminismo para a prática imoral em que a sua própria “liberdade” se baseava, também os libertários sexuais procuram embasamento nos princípios do sub-humanismo moderno. O então cardeal Joseph Ratzinger explicou essa dinâmica no seu famoso ensaio “O Problema das Ameaças à Vida Humana”, que traça o papel da liberdade mal interpretada na criação da nossa cultura da morte:

“Se olharmos rapidamente para a época moderna, veremos uma dialética que permanece vigente até hoje. Por um lado, a modernidade se orgulha de ter descoberto a ideia dos direitos humanos como inerentes a todo ser humano e com antecedência a qualquer lei positiva, além de ter proclamado esses direitos em solenes declarações. Por outro lado, esses mesmos direitos, reconhecidos como tais na teoria, nunca foram tão profunda e radicalmente negados na prática.O dogma fundamental do Iluminismo afirma que o homem deve superar os preconceitos herdados da tradição: ele deve ter a ousadia de se libertar de todas as autoridades, a fim de pensar por conta própria usando nada além da própria razão.

A ideia do bem em si mesmo é retirada do alcance do homem. O único ponto de referência para cada pessoa é o que ela pode conceber por conta própria como sendo bom. Por conseguinte, a liberdade não é mais vista positivamente como um esforço pelo bem que a razão descobre com a ajuda da comunidade e da tradição; ela passa a ser definida como uma emancipação de todas as condições que impedem cada um de seguir a própria razão. Isso é chamado de ‘liberdade de indiferença’.

Um tipo individualista de antropologia, como vimos, nos leva a considerar a verdade objetiva como inacessível, a liberdade como arbitrária, a consciência como um tribunal fechado em si mesmo. Tal antropologia leva a mulher não somente a odiar o homem, mas também a odiar a si mesma e a sua feminilidade; acima de tudo, porém, a leva a odiar a própria maternidade.

Em termos mais gerais, esse tipo de antropologia leva os seres humanos a odiarem a si mesmos. O ser humano despreza o ser humano. Ele não é mais um ser conforme Deus, que olhou para a sua criação humana e achou-a “muito boa” (Gn 1,31). Pelo contrário, o homem de hoje se vê como o destruidor do mundo, como um produto infeliz da evolução. O homem que não tem mais acesso ao infinito, a Deus, é um ser contraditório, um produto que falhou. Vemos nisto a lógica do pecado: querendo ser como Deus, o homem procura a independência absoluta. Para ser autossuficiente, ele precisa se tornar independente, emancipar-se até mesmo do amor, que é sempre um dom da graça e não algo que pode ser produzido ou fabricado. Ao se proclamar independente do amor, no entanto, o homem se separa da verdadeira riqueza do seu ser e se torna vazio. A oposição ao seu próprio ser é inevitável. ‘Não é bom ser um ser humano’: a lógica da morte faz parte da lógica do pecado. O caminho para o aborto, para a eutanásia e para a exploração dos mais fracos passa então a ficar aberto”.

Essa qualidade solipsista da moralidade do sub-humanismo, que consiste no “crie-seu-próprio-mundo-ex-nihilo”, teria uma clara manifestação, um ano depois de Ratzinger escrever essas palavras, na lógica utilizada pela Suprema Corte dos Estados Unidos para ditar a sua decisão no caso Planned Parenthood versus Casey (1992), cuja passagem-chave diz: “No coração da liberdade encontra-se o direito de definir o próprio conceito de existência, de significação, de universo e do mistério da vida humana”.

Vamos pensar durante um instante nesta afirmação. Será que esse “coração da liberdade” incluiria também o meu “direito” de definir “o meu próprio conceito” de liberdade? E se o meu conceito não corresponder ao seu? Qual deles merece prevalecer? E se cada um de nós definir o próprio conceito de significação, como é que vamos saber o que a decisão da Suprema Corte significa na hora em que a lermos? Se o meu conceito de “universo” é diferente do seu, conforme é “meu direito”, isso quer dizer que eu posso negar a existência da lei da gravidade e jogar você janela abaixo? De acordo com a Suprema Corte dos Estados Unidos, sim; desde que você ainda não tenha nascido.

O que a Suprema Corte apresenta como a nobre lógica da liberdade americana é, na verdade, pura tagarelice incoerente, revestida com a linguagem dos “direitos”: se fosse levada a sério, tornaria impossível não apenas governar, mas também comunicar-se e até mesmo pensar. É um engano plantado no voluntarismo. É a loucura que deriva da birra. É o que acontece quando o seu único axioma é “Não servirei”.

Fonte: www.aleteia.org