Por que há tanto ladrão no Brasil? Ah… Miséria, falta de emprego.. Mas, não é só isso. Não falo dos ladrões de galinha, falo da primavera dos ladrões que espocam como flores no País todo, falo dos chafarizes de corruptos que jorram de dentro da coisa pública, falo das miríades de “FDP’s” que dirigem partidos, autarquias, estatais, bancos de sangue e necrotérios, sempre roubando. Eles são uma tradição em 400 anos de sacanagens, legitimadas pelo Sistema Jurídico que as preserva como patrimônios da nação. Nossos ladrões se protegem na política. O sujeito rouba e foge para o mato? Não. Foge para o Congresso, para dentro da Lei. Calcula-se em R$ 75 bilhões por ano o total da “mão grande” no dinheiro público.

Cada gatuno tem uma desculpa que o justifica. A maioria rouba por prazer e vingança. Muito comum o larápio que rouba para se vingar de uma humilhação de pobreza, às vezes traumas sexuais infantis. “Me pegaram no porão e me comeram, por isso hoje eu roubo a Previdência…” São os ladrões com “justa causa”. Há ladrão de todo tipo.

Há o ladrão esportivo, que rouba pela adrenalina. Apalpar os dólares pela concessão de um canal de esgoto ou um golpe no INSS são volúpias inesquecíveis. É melhor que bungee jump.

Há o ladrão com anel de doutor, conhecedor dos meandros, frestas e “breubas” dos códigos. Sabe das instâncias infindáveis, sabe dos recursos, agravos, embargos, chicanas, sabe que, de todos os vagabundos presos entre 1996 e 2004 pela PF, só um sujeito foi em cana. A PF prende e a Lei solta.

Há também os facínoras orgulhosos, que se gabam do butim como de uma ação heróica; gargalham em vídeos: “Roubo, sim, e quem não rouba?” São herdeiros da tradição ibérica, insurgentes contra a Coroa colonial que se orgulhavam de lesar.

Temos os gatunos sexuais, que roubam por tesão. Conheci um sujeito do Esquadrão da Morte que se masturbava nas execuções em matagal. “Roubar dá tesão, amigo…” – me disse o ladrão aposentado, deitado numa bóia roxa, flutuando na piscina em forma de vagina, com um coquetel amarelo na mão.

Há os ladrões com perspectiva histórica pessimista. Suspiram: “Não há o que fazer… O mundo sempre foi assim…” E tacam a mão no dinheiro público…

Temos ladravazes filosóficos que lamentam: “O ser humano é nocivo por natureza.” E metem a munheca no saco de grana.

Há “amigos do alheio” com sentimento crítico: “Infelizmente, sempre tem alguém para roubar o País… Logo, arrebato antes o tutu que está dando sopa!…”
Conheço estelionatários patrióticos, defensores de
uma moralidade ao avesso: “Você acha que eu vou pagar imposto para sustentar marajás vagabundos? Eu não – embolso a granolina e ainda processo a União.”.
Temos muitos “Ali Babás” assumidos, modernos, conscientes do próprio vício: “Qual é problema? Eu roubo, sim; e – qualé? – vai encarar?”

Há os ladrões em rede, impossíveis de achar. Estão em teia dentro da coisa pública, entre os escaninhos dos burocratas. Saem com a cara coberta nos flagrantes da PF e depois são liberados pelos pelotões de “advogadas” que infestam os foros.

Há os ladrões populistas, políticos que “amam o povo” e que conseguem ficar sempre limpinhos, intocáveis, comandando cabos eleitorais que roubam para eles. São os ladrões “teflon” – nada gruda neles.
Existem muitos ladrões nacionalistas que dizem, de peito enfunado e testa alta: “Eu roubo porque não vou deixar aí essa grana para pagar o FMI!”

Com a esquerda no poder, surgiram os ladrões ideológicos: “Não é roubo não… – afirmam -, trata-se de”desapropriação” dos burgueses que exploram o povo; por isso, pego propina das empresas de ônibus, sim, para fazer caixinha para meu partido, pois, como dizia Lênin: os fins justificam os meios…”
Há também vagabundos “alternativos”, biltres meio “hippies”: “Qual é cara? Eu só dei um tapa naquela nota para ir morar em Canoa Quebrada, longe desse mundo careta…”

Agora, com a CPI nas bocas, aparecem os canalhas que assinam a instalação para chantagear o Executivo por cargos e emendas e para bancar honestos na tribuna e se limpar. CPI é o sabão em pó de gatunos…
Há os ladrões-espada, competentes, estudiosos, olhados com unção nas churrascarias: “Aquele lá é gatuno, cara…” -,diz o executivo. “É… mas é craque, dá nó em pingos d’água’ -, retruca o outro com admiração.

Temos também os larápios que estudam a natureza humana. Conheci um que adorava ver os olhos covardes do empresário pagando-lhe a propina para um perdão de dívida. Disse-me: “Adoro ver a raiva travada dos empresários que achaco, adoro ver o sapo engolido, adoro ver-lhe as mãos trêmulas.”

Há também gatunos masoquistas. “Adoro ver o desprezo que os empresários têm por mim, quando me compram. Gosto de me vender e ser humilhado pelos honestos, mas com a graninha me esquentando o bolso…”

E existem ladrões sádicos: “É delicioso ver a cara de dignos juízes quando exaram uma liminar comprada, sob a piscadela cúmplice que lhes dou na hora da sentença…”

Conheço também ladrões gelados, psicopatas, que sentem orgulho ao suportar o sentimento de culpa que lhes bate na consciência quando, digamos, roubam verbas de criancinhas com câncer, indo depois para casa, onde os filhinhos felizes vêem desenho animado na TV.

E há ladrões, pandinhas, biltres, patifes, chantagistas intelectuais, que discursam com profundidade: “Este País foi feito assim, na vala entre o público e o privado. Há uma grandeza na apropriação indébita, florescem ricas plantas na lama das roubalheiras. A bosta não produz flores magníficas? Pois é… o Brasil foi construído com esse fertilizante. O progresso do País deve-se à roubalheira secular. Sempre foi assim e sempre será. Roubo também é cultura…”

Não há solução. A única coisa que os brasileiros têm de fazer é a urgentíssima, inadiável Reforma do Judiciário. E extinguir os 26 mil cargos públicos em que os ratos se enquistam.
Mas, o presidencialismo de coalizão não permite. Afinal… a reeleição…

ARNALDO JABOR em O ESTADO DE S.PAULO 24/05/2005

 

Releitura:

Como todos os artigos desta seção, este é também antológico porque independe de data e é sempre atual, oportuno e perfeito. Que o povo pare de falar palavrão quando o camisa 10 erra um gol e aprenda mais a acompanhar a vida pública, que de fato importa a todos e ao futuro nosso e de nossos filhos, como ensinou Bertold Brech:

O Analfabeto Político
Bertolt Brecht

“O pior analfabeto é o analfabeto político. Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos. Ele não sabe o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio dependem das decisões políticas.

O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia a política. Não sabe o imbecil que, da sua ignorância política, nasce a prostituta, o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos, que é o político vigarista, pilantra, corrupto e lacaio das empresas nacionais e multinacionais.”