O que se diz e o que se deve saber desse composto amplamente usado para alívio de sintomas de várias doenças, mas cujas reais propriedades pouco se conhece

Por Raphael Martins

Na cultura popular, existem vários mitos acerca da própolis. É descrito como remédio milagreiro, solução para os mais diversos tipos de enfermidades, como queimaduras, infecções, cortes, até problemas de pressão e cardíacos.

Severino Matias de Alencar, professor do departamento de Agroindústria, Alimentos e Nutrição da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), alerta que o principal erro da literatura informal e de fontes sem embasamento teórico é a generalização. Segundo ele, são vários os tipos de própolis existentes na natureza, ao contrário do que se acredita popularmente, e cada um tem diferentes propriedades. “Acham que própolis é uma coisa só, mas só no Brasil são mais de 13 tipos. Própolis é uma resina vegetal coletada pelas abelhas. Em cada lugar essa resina é diferente, por isso mudam os seus compostos”, explica.

Os efeitos diferenciados da própolis são evidentes há tempos, por isso o uso comum na medicina popular e alternativa. Mas seu uso não deveria ser indiscriminado. Segundo Alencar, não há indícios de contraindicações da própolis brasileira, mas há casos de efeitos alergênicos da própolis europeia. Justamente por isso, há tantas linhas de pesquisa que buscam encontrar as reais características desse composto, ainda misterioso. O professor explica ainda que todos os produtores de própolis, no Brasil, devem estar regulamentados e registrados de acordo com as normas do Ministério da Agricultura, fazendo-se, inclusive, vistorias para garantir a qualidade da produção. E essa regulamentação precisa ser eficiente, não só pelos riscos toxicológicos, mas pela relativa simplicidade do processo produtivo da própolis, que consiste basicamente na exposição da colmeia à luz, fazendo com que a fotofobia das abelhas acelere a coleta das resinas específicas para tampar o buraco. A cada dois meses já é possível extrair quantidades consideráveis de própolis.

Sobre a cura de doenças, a polêmica ganha contornos mais delicados. Em qualquer pesquisa na internet pode-se constatar que a própolis é a passagem para a vida eterna: cura gripes, bronquites, gastrites, calvície, infecções intestinais, entre várias outras doenças. Entretanto, Alencar enfatiza: “Própolis não é medicamento! É um alimento, que não pode ser usado com fins terapêuticos. São seus compostos fenólicos que combatem determinados efeitos de doenças, trazendo alívio dos sintomas. É como tratar câimbras com bananas – o que realmente resolve é o potássio”.

Compostos fenólicos que compõem os diferentes tipos de própolis trazem em sua natureza propriedades antibacterianas, antioxidantes e/ou antimicrobianas. Isso explica por que se resolvem assim tantos problemas de saúde e a própolis acaba encarada, erroneamente, como medicamento: em sua composição, há agentes que atacam determinados sintomas de doenças comuns, melhorando o estado geral do paciente.

Chamada popularmente de antibiótico natural, a própolis carrega em seus compostos fenólicos e derivados uma vantagem real se comparada aos remédios industriais. Os antibióticos produzidos em um laboratório têm, geralmente, um princípio ativo restrito. As bactérias sobreviventes a ele criam novas espécies resistentes, tornando o remédio ineficaz. A complexidade química da composição da própolis impede, de fato, a criação de bactérias resistentes à sua ação – são vários agentes e compostos, de várias origens, que atacam um mesmo causador da doença.

Nesse ponto, a cultura popular mostrou-se correta, mas, em virtude de acertos não embasados, como esse, criam-se várias lendas em torno do assunto. Para desmistificá-las, é prudente consultar pesquisadores e especialistas no assunto, principalmente antes de automedicações sem acompanhamento.

O espaço Aberto é uma publicação mensal da Universidade de São Paulo e produzida pela Coordenadoria de comunicação Social

Reportagem da Revista Espaço Aberto n. 131, EcoDebate, 15/09/2011

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