Mara Silva 
Venenos não são apenas aqueles que atacam o corpo: o tabaco, o álcool, as drogas e tantas outras substâncias que agridem nosso organismo. Há outra categoria deles, aqueles que atacam a alma.

O romantismo é um forte veneno. Contamina os sentidos, cria falsas expectativas, compromete a leitura de realidade e a interpretação dos fatos, torna-se obsessor, importuna, interfere no pensamento crítico e na correta avaliação das situações.

Ele compromete a vivência amorosa, sufoca pelo zelo excessivo. Quanto mais carente, mais necessitado de amor for o ser humano, mais espaço disponível para os sentimentalismos, mergulho perdido, sem eira nem beira, fronteiras delimitadoras. Amar é preciso, romantizar não é preciso. A doação exagerada torna o amor um fardo, espalha insegurança e temor.

A tarefa é aprender a gostar na medida correta. Ultrapassar para o terreno pantanoso do romantismo é temerário. Acaba por criar fortes fantasias, algumas vezes tão delirantes que o alvo, o “ser amado”, se as descobrisse, acabaria surpreso e magoado.

Um sorriso, um carinho inesperado, um convite mais íntimo, um envolvimento de pele e pronto! O romantismo cria tema, cenário e situação. Cria tentáculos, envolve insinuante como um polvo, já não há mais saída.

Em geral ele também é responsável por um paradoxal e infeliz arranjo: quanto mais impossível e duvidoso o amor, mais ele se instala e ganha força. É uma forma encontrada pelo ser apaixonado para se investir do papel de herói. Por exemplo, a moça que se conforma em ser “a outra”, aceita com alegria; o homem espera longamente, sofrendo ferido, que a amada tome a decisão pela relação.

Assim, infelizmente, bastante fora de prumo, poucas vezes o romantismo encontra uma resposta condizente. Na medida em que ele se revela, assusta o par que pode nem estar preparado para tamanha quantidade de amor e devoção.

O que se deve é vigiar essa pantera faminta de perto. Preservar a personalidade, manter a cabeça erguida com dignidade, recusar situações afetivas obscuras, em que não há definição de caminho ou projeto equilibrado de vida. Cuidado para sempre se estar livre dos sentimentos enganosos, do sentimentalismo que impede a troca verdadeira de amor. Esse amor que apenas brota e floresce na honestidade equilibrada da relação, protegido do romantismo enganador.

Marina Gold 

*Marina Gold é professora universitária formada em letras (português, inglês e alemão) pela UNESP-Assis e em pedagogia pelas Faculdades Campos Salles. É mestra em comunicação e semiótica pela PUC-SP.

Fonte: Correiodobolsao.com