Não vamos questionar aqui os laços de ternura, amor e respeito que devem existir entre pais e filhos

Eu fico estarrecido com algumas coisas que acontecem em nosso pequeno mundo tupiniquim. São pérolas da política a serem documentadas e observadas com atenção especial. Na verdade um prato cheio para os estudantes que trabalham a partir de casos. São coisas que, em não retratando gravíssimos atentados contra a República e a seriedade do Estado Democrático de Direito, poderiam ser enquadradas no rol das piadas de boteco. Aquelas em que os “bebuns”, depois de tomarem todas e não conseguirem sequer organizar os pensamentos de maneira lógica, falam um monte de bobagens na doce ilusão de serem engraçados aos pares de copo.

2. Meu pai-pai!!!

No último dia 04 de outubro, em entrevista numa Rádio da Capital, um ainda senador Rolimense, entre tantas bobagens tagareladas, uma chamou a atenção pela audácia com que se tratam as instâncias do Estado Brasileiro. É a encarnação viva de que o poder político é tratado por alguns como a extensão de sua propriedade privada. De seus interesses patriarcais, pessoais ou econômicos. Depois de falar maravilhas de seu Governo e criticar duramente o Governo de Confúcio Moura, o Senador Rolimense esclareceu, de forma contundente e cristalina o motivo de ter-se afastado do mandato de Senador, para o qual foi eleito pela população de Rondônia (com métodos bastante questionáveis):

“… A coisa anda muito devagar no Senado, é verdade. Mas eu queria dar esse presente ao meu pai, que me educou, me deu as diretrizes. Enquanto eu percorria Rondônia, fortalecendo o PP e conversando com a população”, palavras do nobre Senador!!

3. De quem é o mandato afinal?

Não vamos questionar aqui os laços de ternura, amor e respeito que devem existir entre pais e filhos. Isso seria desnecessário e absurdo. Estamos falando da representação política da nação. Cabe na cabeça de algum mortal que uma pessoa possa dar um mandato de senado a alguém como presente de gratidão? Está na constituição, o mandato político não é propriedade do eleito, assim ele não tem competência nem legitimidade para dar nada, principalmente, e particularmente, o que não é seu. O mandato político é tão somente uma parte do poder conferida a alguém para exercê-lo em nome do povo. O mandato é temporário, efêmero e fincado na soberania popular. Em tese, essa concepção garante transparência e seriedade ao exercício do Poder.

4. Aberrações!

Colocar parentes como suplentes de Senador, ou vice, em chapas eleitorais, é um acinte a seriedade com que a política deva ser exercida. É um tumor dentro da democracia. O poder não é espaço familiar ou empresarial, embora muitos assim o pensem. Embora eles não acreditem, o poder não é privado. É algo maior e esse tipo de prática precisa ser combatido com legislação, com ética e responsabilidade eleitoral de cada um de nós. A falta de legitimidade e o despreparo para o exercício da representação do Estado fazem-nos passar pelo constrangimento de ver o nome de Rondônia servindo de chacota em nível nacional pelas propostas folclóricas de alguém que recebeu de presente o mandato de Senador. Um “presente” para manter os interesses da família Rolimense dentro da mais Alta Casa Legislativa do país. Isso cheira a algo isento e republicano?

5. Cadê o TRE? Um ano já se passou!!!

O Tribunal Eleitoral de Rondônia possui tramitando pelos seus recantos gravíssimos processos sobre as travessuras cometidas pelo senhor Rolimense na campanha eleitoral de 2010. Já se passou mais de um ano do pleito e até agora nenhum desses processos sequer foi julgado pelo Tribunal de Rondônia. Isso parece ferir a legislação e, mais do que isso, fere a seriedade o Estado Democrático de Direito.  Enquanto a reforma eleitoral não avança e os doutos magistrados não se manifestam no intuito de arejarem a combalida esperança do povo na justiça terrena, resta a nós vermos o diálogo de nossa representação política da seguinte forma:

– Meu pai-pai!!!…

– Meu garoto!!…

– Meu pai-pai-pai!!!…

– Meu garoto!!!…