Ao visitar Aquileia, sede da maior diocese europeia na Idade Média, Bento XVI lançou nesse sábado um apelo para que os cristãos levem os valores do Evangelho a todos os âmbitos, em particular à política.

Em meio à descristianização que se vive nestas terras, o bispo de Roma perguntou-se, na basílica desta antiga cidade romana – fundada no ano 180 –: “como é possível anunciar Jesus Cristo, como comunicar o Evangelho e como educar hoje na fé?”.

Sua resposta foi: “A missão prioritária que o Senhor lhes confia hoje, renovados pelo encontro pessoal com ele, consiste em testemunhar o amor de Deus pelo homem. Vocês estão chamados a fazer isso antes de tudo com as obras do amor e as opções de vida a favor das pessoas concretas, começando pelos mais frágeis, indefesos, não auto-suficientes, como os pobres, os anciãos, os enfermos, os deficientes”.

No contexto de uma “busca com frequência exasperada de bem-estar econômico” e de “grave crise econômica e financeira” – acrescentou –, os fiéis estão chamados a “promover o sentido cristão da vida, através do anúncio explícito do Evangelho, levado com dedicado orgulho e com profunda alegria aos diferentes âmbitos da existência diária”.

“Não reneguem nada do Evangelho naquilo que crêem – disse –, mas vivam entre os homens com simpatia, comunicando em seu próprio estilo de vida esse humanismo que deita suas raízes no cristianismo, buscando edificar junto a todos os homens de boa vontade uma ‘cidade’ mais humana, mais justa e solidária”.

Cristãos na política

Este compromisso – disse por último – é particularmente importante para a crise política atual.

Este âmbito “tem mais necessidade que nunca de ver pessoas, sobretudo jovens, capazes de edificar uma ‘vida boa’ e ao serviço de todos”.

“Os cristãos não podem retirar-se deste compromisso, pois se bem que são peregrinos para o Céu, vivem já aqui uma antecipação da eternidade”, concluiu.

Papa adverte dos perigos da sociedade “líquida”

Ao concluir sua visita a Veneza na tarde deste domingo, Bento XVI advertiu os católicos dos perigos da atual sociedade “líquida”, sem estabilidade nas relações humanas e relativista. O Papa propôs como alternativa o modelo de sociedade “da vida e da beleza”.

O encontro com o mundo da cultura e da economia, último grande evento de sua viagem de dois dias a Aquileia e Veneza, deu-lhe oportunidade para apresentar sua radiografia da cultura “líquida”, conceito cunhado pelo filósofo polonês Zygmunt Bauman (Pozna?, 1925), que entre 1971 e 1990 foi professor de sociologia na Universidade de Leeds.

A sociedade europeia, disse o Papa, está submersa em uma “cultura líquida”, termo com que se refere “à sua ‘fluidez’, à sua pouca estabilidade ou talvez à sua ausência de estabilidade, à mutabilidade, às inconsistências que às vezes parecem caracterizá-la”.

Bauman atribui o nascimento da sociedade “líquida” ao modelo consumista e considera que seu impacto mais profundo se dá nas relações sociais, e mais em particular nas relações entre o homem e a mulher, que se têm feito cada vez mais flexíveis, impalpáveis, como manifesta o conceito atual de amor reduzido a mero sentimento passageiro.

A este modelo de sociedade “líquida”, o bispo de Roma contrapôs – ao falar na estupenda Basílica de Santa Maria da Saúde – o modelo da sociedade “da vida e da beleza”.

“Certamente é uma opção, mas na história é necessário escolher – afirmou –: o homem é livre para interpretar, para dar um sentido à realidade, e precisamente nesta liberdade reside sua grande dignidade”, assegurou.

“No âmbito de uma cidade, seja qual for, também as escolhas de caráter administrativo, cultural e econômico dependem, no fundo, desta orientação fundamental, que podemos chamar de ‘política’, na acepção mais nobre e elevada do termo.”

“Trata-se de escolher entre uma cidade ‘líquida’, pátria de uma cultura que parece ser cada vez mais a cultura do relativo e do efêmero, e uma cidade que renova constantemente sua beleza, recorrendo aos mananciais benéficos da arte, do saber, das relações entre os homens e os povos”, assegurou.

Fonte: ZENIT.org – Por Jesús Colina VENEZA, domingo, 8 de maio de 2011