Equipamentos de segurança só sensibilizam nossos parlamentares diante da perspectiva de inflar seus saldos bancários

Motorista brasileiro finge que se preocupa com segurança. Ao responder a uma pesquisa, declara enfático ser o item mais importante ao decidir a compra de um carro. Mas na concessionária, ao fechar negócio, ele pede rodas de liga leve, estofamento em couro e outros mimos. Mas freios com ABS e airbags nem pensar, pois não cabem no orçamento.
Nossos automóveis terão obrigatoriamente airbags e freios ABS a partir de 2014. No caso das bolsas infláveis, a lei não foi aprovada pela preocupação com a segurança, mas com o cofre dos fabricantes. Quem defendeu a ideia em Brasília foi um senador que tem, por acaso, um filho como lobista de uma das fábricas que vão se regalar com a obrigatoriedade. Deu para entender?


Outros equipamentos são importantes na segurança do automóvel. Mas, se são baratos, não contam com parlamentar nenhum para defendê-los. Exemplo? Ao contrário do airbag, que vai fazer chover na horta de seus fabricantes, o apoio de cabeça no centro do banco traseiro ainda não é obrigatório, pois é um dispositivo simples e custa muito pouco. A pergunta (sem resposta) é: se os outros quatro passageiros contam com essa proteção, para evitar problemas no pescoço e na coluna cervical, por que não estendê-la ao quinto?


Outro dispositivo voltado para a segurança, mas também barato, é o sistema Isofix. É um engate bem mais seguro para as cadeirinhas de crianças, pois estas são fixadas diretamente na estrutura do banco, ao contrário das convencionais, que são presas nos cintos de segurança. Tanto o apoio central de cabeça como o Isofix são equipamentos importantes, mas de pouco valor agregado. E ambos, para serem instalados, exigem investimentos das montadoras em novos projetos para os bancos traseiros. A consequência é que esses dois dispositivos não sensibilizam ninguém, pois pouco acrescentam no faturamento das empresas nem oferecem perspectivas de inflar os saldos bancários de deputados ou senadores. No Brasil, apenas automóveis importados (e alguns brasileiros que são também exportados) contam com o Isofix. Mas não basta o carro contar com o dispositivo: a cadeirinha também tem que ser projetada para se acoplar ao engate.


A Argentina acaba de demonstrar maior preocupação com o assunto e tornou obrigatório o sistema Isofix e o apoio central no banco traseiro. No Brasil, a julgar pela batalha que foi tornar obrigatória a cadeirinha convencional, presa no cinto, implantá-los aqui seria uma briga de lobistas: os das montadoras, contrários, e os dos fabricantes de cadeirinhas, favoráveis…


Dessa vez os papéis se inverteram e a segurança vem à força, pois a inércia do samba será vencida pela agilidade do tango: como somos exportadores para a Argentina, nossos automóveis terão os equipamentos para se adequar à legislação dos “hermanos”.

 

Fonte: Blog do Boris Feldman Uai – Estado de Minas